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Keblinger

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«Bem-aventurados os que não viram»

| 20 abril 2017

O trecho de hoje está claramente dividido em duas partes que correspondem às aparições do Ressuscitado. Na primeira (vv. 19,23), Jesus comunica aos apóstolos o seu Espírito e com Ele infunde-lhes o poder de vencer as forças do mal. Na segunda (vv. 24-31), é narrado o famoso episódio de Tomé.
Vamos tentar comparar estas duas aparições e tomemos nota, num papel, de todos os detalhes que elas têm em comum. Em seguida continuemos a ler este comentário.
Todos, com certeza, devem ter observado que as duas aparições acontecem no «domingo»; que os que vivem a experiência do Ressuscitado são os mesmos (mais um, menos um...); que o Senhor Se apresenta com as mesmas palavras: «A paz esteja convosco»; que em ambos os encontros Ele mostra os sinais da sua Paixão...
Pode haver outros pormenores, mas estes quatro são suficientes para nos mostrar a mensagem que o evangelista nos quer passar.
Os discípulos estão, pois, reunidos em casa. A que encontro se refere João? Muitos já devem ter deduzido: à assembleia semanal da comunidade cristã. É esta a hora em que Jesus Se manifesta vivo aos discípulos. Quem não se encontra com a comunidade reunida, não encontra o Ressuscitado (vv. 24-25), não pode ouvir a sua saudação e a sua Palavra, não pode receber a sua paz (vv. 19.26), não prova da sua alegria (v. 20), não recebe o seu Espírito (v. 22).
Também para nós hoje se torna possível passar pela experiência que os apóstolos tiveram no dia de Páscoa e oito dias depois. De que forma? Participando na assembleia comunitária.
É aí que Jesus marca o encontro semanal com todos os seus discípulos.

Vamos agora ao episódio de Tomé.
Coitado do Tomé! Que mal fez ele? Afinal, não pretendia muito: Pedia para também ver o que os outros tinham visto. Porventura não tinham eles também acreditado só depois que o Senhor se lhes manifestara?
O objectivo de João não é o de criticar o comportamento de Tomé, mas dar uma resposta às perguntas e às objecções dos cristãos do seu tempo (por volta dos anos 90 d.C.).
Tomé foi escolhido como símbolo das dificuldades que todo o discípulo encontra e encontrará sempre para acreditar na ressurreição de Jesus. Os próprios apóstolos não aderiram nem rápida nem facilmente à fé no Ressuscitado; basta pensar que, na última página do seu Evangelho, Mateus conta que, quando Jesus lhes apareceu na montanha da Galileia (portanto muito tempo depois das aparições de Jerusalém), «alguns ainda duvidavam» (28, 17). Para eles também, portanto, a fé foi uma conquista difícil, embora o Ressuscitado lhes tivesse dado muitos sinais de que estava vivo e tinha entrado na glória do Pai.
João quer responder aos problemas dos cristãos das suas comunidades que pretendem ver para crer. Ele responde às suas perplexidades, narrando o episódio de Tomé e explica que o Ressuscitado tem uma vida que escapa aos nossos sentidos, uma vida que não pode ser tocada com as mãos ou vista com os olhos. Só pode ser objecto da fé.
Não se pode ter fé naquilo que foi visto. Não se podem fornecer provas científicas da Ressurreição. Se alguém quer ver, constatar, tocar, deve renunciar à fé.
Nós dizemos: «Bem-aventurados os que viram». Para Jesus, ao contrário, bem-aventurados são aqueles que não viram. Mas, então, porquê? Talvez porque para eles custa mais acreditar e portanto têm maiores merecimentos. Mas não é assim. São bem-aventurados porque a fé deles é mais genuína, mais pura, é mesmo a única fé pura.
Quem vê tem a certeza da evidência, possui a prova inegável de um facto, não a prova da fé.
O caminho que todos os discípulos são chamados a percorrer é descrito por João no final do trecho de hoje: «Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome» (vv. 30.31).
Eis a única prova apresentada a quem procura razões para acreditar: o próprio Evangelho. Aí ressoa a Palavra de Cristo, aí refulge a sua pessoa.
Perante a proposta que nos vem do Evangelho, cada um é chamado a dar a sua adesão. Pode também recusá-la. Não há outras provas para além desta Palavra.
Para entender isto, é bom relembrar tudo o que Jesus diz na parábola do Bom Pastor: «As minhas ovelhas reconhecem a minha voz» (Jo 10, 4-5.27). Não acontecem aparições! No Evangelho ouve-se a voz do Pastor e, para as ovelhas que Lhe pertencem, o som da sua voz é suficiente para O reconhecer e seguir atrás d'Ele.
A profissão de fé que João põe nos lábios de Tomé é colocada e acontece no momento histórico em que foi proferida. Essa é a época em que em Roma reinava o imperador Domiciano, um megalómano que inundou o império com a s suas estátuas, que mandou erguer templos em sua homenagem em todos os lugares, para ser adorado como um deus; que decretou que todas as leis emanadas em seu nome começassem com estas palavras: «Domiciano, nosso senhor e nosso deus, ordena que...».
Os cristãos, a quem João envia este Evangelho, correm o risco da apostasia, sentem-se tentados a ceder às lisonjas do culto ao imperador, são induzidos a tributar reverência ao tirano da época. Eles, porém, devem estar conscientes de que os títulos «Nosso Senhor e Nosso Deus» estão reservados somente ao Ressuscitado.
Esta profissão de fé é muito actual: deve ser repetida frequentemente e em muitas circunstâncias pelos cristãos dos nossos dias. São muitos os poderosos e senhores do mundo que estão dispostos a conceder vantagens e privilégios aos que se prostram diante deles e lhes tributam honras divinas. Por medo ou por oportunismo, muitos cedem. O cristão não o pode fazer: já tem o seu Senhor e o seu Deus.


- Reflectindo Jo 20, 19-31 -
Fernando Armellini
in "O Banquete da Palavra - Ano A", Edições Paulinas



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